Do casamento à construção da vida em CM
Publicado em: 19/02/2012 - 23:25 | Atualizado em: 16/05/2012 - 11:48
Publicado em: 19/02/2012 - 23:25 | Atualizado em: 16/05/2012 - 11:48
A relação de Maria Elisa Tavares Fernandes com o Brasil começou quando seu namorado veio com dois irmãos para trabalhar na região de Campo Mourão. “Meus irmãos trouxeram meu namorado para cá e depois eu vim atrás”, recorda. A portuguesa de 20 anos passou a conversar com o futuro marido por cartas, que demoravam em média um mês para chegar até seu destino. Como o sistema não era muito eficiente, não era raro as cartas se perderem no oceano.
Depois de mais de dois anos sem ver o amado, Maria Elisa, casou com o cunhado. Tudo com a aprovação dele que estava no Brasil. Para que não fiquem dúvidas, o que aconteceu é que o casamento foi realizado por procuração. Mas enquanto aqui no Brasil apenas testemunhas serviam, lá em Terras Portuguesas, era necessário que uma pessoa ‘interpretasse’ o papel do noivo. Essa tarefa é que coube ao cunhado. “Se ele ficou com ciúmes eu não sei, mas era necessário certo e como era da família tudo bem”, comenta rindo.
| Arquivo Pessoal |
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| Maria Elisa é a terceira da direita para esquerda, com a criança no colo |
Antes do casamento, sua vida era sofrida, como ela mesma define. Na época, o país passava por um período de muita pobreza. Como vivia em uma área rural, a rotina só mudava guiada pelas estações. No verão, ela levantava cedo e ia cortar centeio ou trigo. “Desde às 7 horas da manhã até às 18 horas.” No inverno era época de apanhar azeitona, com isso, as horas de trabalho aumentavam e ela saia às 6 horas de casa e voltava quase às 20 horas.
“A gente era muito sacrificado. Desde criança trabalhava na roça o dia inteiro, com sol ou chuva. Aqui nunca fui nem apanhar azeitona ou andar no frio.” Para ela, é preciso falar a verdade. “Aqui é bem melhor. Gosto muito de onde me criei. Gosto das pessoas que eu deixei lá que muitas já não estão. Tenho muitas saudades, mas morar lá seria muito difícil”, afirma ela antes de acrescentar que veio para Campo Mourão e daqui nunca mais pensou em sair. “Gosto muito daqui. O pouquinho que a gente tem, eu tenho aqui. Construí minha vida aqui.”
A vinda
Maria Elisa conta que as portas para o Brasil foram abertas por uma firma de Portugal que estava recrutando jovens. Depois de três anos e o casamento inusitado, a imigrante se preparava para rever o marido. A viagem de 12 dias até Santos foi feita pelo navio italiano Anna C, que fazia a rota Itália – América do Sul.
Quando chegou, Campo Mourão era só mato e buracos. “Quando subia aquela poeira, você não via nada.” Os poucos moradores da cidade também eram estranhos para a moça portuguesa. O marido trabalhava o dia inteiro para garantir o futuro da família. Maria Elisa entendia, mas sentia falta de conversas. Lá em terras portuguesas, segundo ela, as famílias eram muito numerosas, principalmente em sua faixa etária.
| Arquivo Pessoal |
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| Maria Elisa em uma viagem realizada recentemente |
“Esses patrimônios que tem aqui hoje, Goioerê e Mamborê, por exemplo, era tudo no meio de mato. Mas as coisas foram melhorando.”
O marido veio trabalhar como viajante – levando a lista de compra para cidades vizinhas e retornando no dia seguinte com as mercadorias – depois passou a atender os moradores de toda a região no balcão. O comércio vendia de tudo, açúcar, feijão, banha e até enxada. “Eles iam no mato e traziam a lista do que tinham vendido. Depois iam com a mercadoria. Foram 12 anos nesse trabalho.”
Caqui ou diospiros?
Embora fossem unidos pela mesma língua, o sotaque e regionalismos tornavam a comunicação complicada. “Embora o português não seja muito diferente, a gente tem um sotaque que não perde, até hoje eu tenho.” Além da forma de falar, o nome de muita coisa era diferente, o que causava certo desconforto. “A gente ficava com vergonha de falar para as pessoas coisas que elas não entendiam. Ia até o açougue e não sabia o nome da carne. Na minha terra era diferente.”
Comprar frutas era um problema que só foi contornado com a ajuda de uma amiga brasileira.
Maria Elisa conta que na época, uma quitanda da cidade pertencia a uma mulher muito conhecida. “Era a Felizberta, todo mundo sabia quem era. E antes de mudar para Maringá, minha cunhada havia deixado o recado de que eu chegaria em breve”, lembra. Querendo comprar abacaxi, Maria Elisa pedia ananás. Se o desejo era levar caqui para casa, ela pedia diospiros. Para resolver, ela ia até a ‘venda’ e mostrava a fruta. “Eu chegava para ela e falava: o que é isso aqui? E ela me ensinava o nome que tinha por aqui”, recorda.
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